bento

essa é a vida de bento
que apareceu naquela cidade num sábado
e logo todos sabiam que dali ele não tinha nascido
muito menos seus cabelos loiros
ficou na casa de dona gestrudes,
ninguém mais queria o menino dentro de casa
enquanto o embalava na rede para fazê-lo dormir
ela contava a ele que não era assim no passado,
havia poucas pessoas na região,
era necessário manter uma boa relação com os vizinhos
para a própria segurança e distração
agora que são em muitos, eles desprezam os que chegam
os dois viviam quase isolados numa pequena casa,
ela acompanhava seu rápido crescimento
via nele o filho que perdeu para o mar anos antes
mas sem as velhas expectativas, tudo se renovava para aquela mulher
que o ensinava a correr pelas areias como se fosse o senhor de tudo
viam as temporadas que traziam lucros para os pescadores,
e levavam os mais experientes consigo
bento ia pescar no barco do tio, sempre apoiado pela mãe
já tinha doze anos, agora também era filho daquela gente
enchia sua vida com a voz de gestrudes, que vinha da sala
e alegrava-se ao observar de longe as redes dançando no mar
mas até as redes precisam ser trocadas, gestrudes morreu de velhice
e bento estava novamente sozinho
sem cesto ou cobertores dessa vez
no fim da tarde, quando dia nos oferece  melancolia
ele sentava-se  na cadeira que era de gestrudes
e via de longe os pescadores preocupados conversando
a respeito do avanço das águas até a areia
e próximo a ele, suas esposas os esperavam na varanda de casa
a doçura no menino perdeu-se no vai e vem das redes
sentia-se como um peixe se debatendo após a captura

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