Estela tinha dois pares de sapatos, os quais revezava para ir ao trabalho.
em segredo, guardava uma sapatilha no fundo do guarda roupas
tinha um azul delicado, como era sua vida na época em que eram usadas
como amigas, ganhavam juntas algumas manchas e cansaço físico
era a lembrança material do dia-a-dia na antiga cidade
seu horário favorito entre todas as voltas do relógio era perto das onze
quando as luzes do bairro pareciam se curvar para iluminá-la
fazendo parte de seu corpo juvenil, estava sua mente distraída com a noite cinzenta, imaginando o que todos estariam fazendo em suas casas naquele momento, talvez a garoa favorecesse uma sopa
ela andava pelas ruas vazias na madrugada
jamais estranharia o que aqueles passos rápidos perto dela poderiam causar
as luzes se apagaram num lugar afastado, onde começou uma dor suja
que com mãos pesadas fecharam seus olhos e deles fizeram sair lágrimas
sendo jogadas para fora como filhos abortados
mas voltam constantemente quando são resgatadas dos porões de Estela
e continuam em sua mente com um toque mais sutil
agora, seus tormentos vivem ali sem causarem tantos estragos
Ela vê brincar do lado de fora sua filha, que brotou em meio a dor
daquela noite
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