daniel passa todos os dias pela rua de calçamento, ele tem o hábito quase irritante de se distrair enquanto levanta a cabeça para analisar a altura dos prédios que estão sendo construídos
''esse é menor do que aquele branco na rua do jair, tem as janelas mais estreitas também''
além de perder alguns segundos pra ver se aparece alguém na janela
de uns dois meses pra cá, combinamos de nos encontrar no mesmo lugar
ele vai para o trabalho e eu para a escola
daniel é o tipo de rapaz que as moças querem ter do lado para amá-las, mas sentem vergonha de apresentar para os outros por sua falta de jeito com pessoas, objetos e palavras
eu diria que é isso que torna aquele 1,70 tão atraente
começamos a pegar o ônibus esse ano, não precisávamos disso antes
parece até divertido quando se olha do lado de fora
e é muito bom quando ninguém está com pressa
no primeiro dia, erramos o ponto, tive a impressão de que o motorista não gostou
daniel tentou entrar pela porta da frente, mas era pela outra porta de trás
quando éramos crianças, nosso ônibus tinha apenas uma porta
depois, quando mudamos para outra escola, não usávamos ônibus
ninguém tinha ideia de que uma porta era pra entrar e outra para sair!
eu tento me consolar daquela vergonha afirmando que estava pagando a passagem
sexta feira, estava inquieta, peguntei para ele se aquela corda funciona de verdade
ele sorriu e disse que estava pensando o mesmo, disse ainda que estava se
questionando o que deveria fazer caso não funcionasse e as pessoas olhassem
sem chegar a uma solução, subimos no ônibus com os olhos fixados naqueles pessoas
parecia provocação, ninguém se atrevia a puxar a corda
outro incômodo foi a cobradora que estava demorando
ficamos desesperados achando que teríamos que descer e ela não viria
quando veio, nem olhou pra nós, mas também não fizemos questão, esse era o menor problema
já que o nosso ponto estava quase chegando
alguns passageiros se aconchegavam nos bancos e outros mexiam na bolsa
não tínhamos mais tempo, em cinco segundos eu iria puxar a corda
nesse instante, uma senhora ergue a bengala com uma das mãos
e a outra segurava duas sacolas amarelas, tentava puxar a corda, mas não alcançava
ao ver aquela mulher em uma situação constrangedora
daniel puxou a corda, apitou algo no painel, o motorista encostou e abriu a porta, nós saímos rindo
depois daquele dia, puxar aquela corda se tornou um hábito
faço questão de puxar como se tivesse sido sempre algo natural
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